
ELEIÇÕES 2026
À primeira vista, parece a mesma história das últimas eleições: Lula muito forte no Nordeste e seu adversário, Flávio, com vantagem no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.
Mas, quando se olha para os resultados cidade por cidade,
aparece uma história diferente.
Flávio terminou o primeiro turno na frente. A decisão, porém, ficou para 25 de outubro, no segundo turno.
E o que aconteceu no primeiro turno ajuda a entender de onde cada candidato parte.
São Paulo é um bom exemplo do peso das diferenças regionais. Só no estado, Flávio conseguiu uma vantagem maior do que a diferença entre os dois candidatos no Brasil inteiro.
De um lado estão muitas cidades em que Lula vence com enorme vantagem — frequentemente por 40 ou 50 pontos percentuais.
Do outro estão cidades em que Flávio também vence com folga, normalmente por 20 ou 30 pontos.
É como se o Brasil eleitoral tivesse dois grandes morros.
A pergunta é: o que diferencia as cidades de um lado das cidades do outro?
Em Nova Pádua, no Rio Grande do Sul, Flávio recebeu 87% dos votos.
A cerca de 2.400 quilômetros dali, em Bonfim do Piauí, Lula recebeu 89%.
São resultados quase opostos.
E existe também uma grande diferença social entre essas duas cidades.
Em Bonfim do Piauí, mais da metade da população recebe Bolsa Família.
Em Nova Pádua, menos de 2%.
Isso não significa que o programa, sozinho, explique o voto de cada pessoa. Ele funciona, porém, como um indicador de diferenças econômicas e sociais que também aparecem nas urnas.
No Nordeste, Lula continua vencendo mesmo nas cidades com uma presença maior de evangélicos.
Mas sua vantagem diminui bastante.
Entre os grupos de municípios analisados, sua votação cai de cerca de 74% para 56% à medida que aumenta a presença evangélica.
Imagine que cada cidade tivesse votado exatamente como quatro anos antes. Nesse caso, praticamente nada teria mudado.
Não foi o que aconteceu.
Em quase todo o Brasil, houve um deslocamento na mesma direção.
Em 99% dos municípios, Lula teve um desempenho pior do que em 2022.
Além disso, 711 cidades que haviam dado maioria a Lula naquela eleição passaram agora para Flávio.
O movimento contrário não aconteceu: nenhuma cidade que havia dado maioria a Bolsonaro em 2022 passou para Lula.
Isso ajuda a entender algo aparentemente contraditório.
Aqueles dois grandes “morros” de cidades já existiam em 2022. Um reunia municípios muito favoráveis a Lula. O outro, municípios muito favoráveis à direita.
Entre 2022 e 2026, os dois grupos se deslocaram na mesma direção: para Flávio.
Em outras palavras, as diferenças entre os dois Brasis continuam existindo. O Nordeste ainda é muito diferente do Sul. Municípios mais dependentes do Bolsa Família continuam votando de forma diferente dos mais ricos. A religião continua associada a diferenças importantes no voto.
Flávio começa o segundo turno com uma vantagem de 2,2 milhões de votos.
É uma diferença considerável, mas não decisiva.
Isso porque cerca de 9 milhões de brasileiros votaram em outros candidatos no primeiro turno.
São eleitores que agora precisam fazer uma nova escolha.
No dia 25 de outubro, o mapa provavelmente continuará mostrando dois Brasis bastante diferentes.
A questão é quanto cada um deles ainda pode se mover.
Porque, numa eleição apertada, não é preciso que o mapa inteiro mude de cor.
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