
Política
Debate de televisão costuma ter púlpito, cronômetro, mediador, candidato tentando sorrir enquanto recebe uma cotovelada verbal e assessor envelhecendo quinze anos atrás das câmeras. O da Globo, marcado para esta quinta-feira, 1º de outubro, inovou no formato: antes de começar, já havia produzido ausentes, liminares, recursos, desistências e um elenco reorganizado por decisões judiciais. No fim, faltou apenas um detalhe. O debate.
A campanha presidencial transformou o estúdio numa espécie de condomínio eleitoral em que ninguém queria apenas ocupar o próprio apartamento:
discutia-se quem podia entrar, quem podia sair e, sobretudo, se a portaria tinha autorização para mostrar que alguém não estava em casa.
Lula decidiu não comparecer e programou uma entrevista ao Flow Podcast para o mesmo período. Sua coligação, porém, foi ao TSE contra a regra que permitiria à Globo manter no cenário o púlpito vazio identificado com seu nome e autorizar perguntas dirigidas ao ausente. A ministra Estela Aranha concedeu liminar restringindo esses mecanismos, sob fundamento ligado à igualdade entre candidaturas e à neutralidade da programação. Não proibiu informar a ausência. Proibiu transformar a cadeira vazia em personagem.
A lógica é fascinante. O candidato pode não estar no palco, mas seu não comparecimento também disputa espaço político. O adversário quer apontar para o lugar vazio; a campanha do ausente prefere que o vazio seja discreto; a televisão quer aplicar suas regras; e o tribunal acaba discutindo até que ponto uma ausência pode ganhar placa, iluminação e perguntas próprias. Convenhamos: há gente presente em Brasília com menos protagonismo.
Então entrou Flávio Bolsonaro. Ou, mais precisamente, saiu. Após a liminar, anunciou que também não participaria, classificando a decisão do TSE como “censura” e defendendo liberdade para a imprensa conduzir o evento. “Censura”, aqui, foi a interpretação política do candidato, não a conclusão jurídica da decisão.
Enquanto isso, Renan Santos percorria o caminho inverso. Ele queria desesperadamente uma cadeira. Depois de decisões desfavoráveis no TSE, uma ação do Solidariedade chegou ao STF, e Gilmar Mendes determinou sua inclusão no debate. De repente, tínhamos um candidato recorrendo à Justiça para entrar, outro recorrendo para controlar os efeitos de não ir e um terceiro desistindo em protesto contra a interferência judicial.
Cada grupo, naturalmente, apresentou sua versão mais conveniente do episódio. Adversários disseram que Lula fugia de perguntas; sua campanha escolheu outra plataforma de comunicação. Aliados de Renan sustentaram que Flávio teria evitado confrontá-lo; Flávio atribuiu a retirada ao TSE. Motivações políticas podem ser alegadas. Provas são outra mercadoria.
A Globo, diante do quebra-cabeça montado poucas horas antes da transmissão, cancelou o programa e alegou insegurança jurídica provocada pelas alterações nas regras e na relação de participantes.
E assim terminou o grande encontro presidencial: Lula no podcast, Flávio fora do palco, Renan autorizado a entrar num debate que deixou de existir, a Globo sem debate e o Judiciário no centro do cenário.
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