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30/09/2026 às 13h30 Atualizada em 30/09/2026 às 13h49
Por: Redação Fonte: Folha Gazeta
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Cykela Neto
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Economia

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A economia brasileira parece um edifício submetido a cargas demais ao mesmo tempo. De um lado, fábricas fecham unidades, varejistas encolhem, grandes grupos renegociam dívidas bilionárias e famílias tentam sobreviver entre juros altos, crédito caro e endividamento. Do outro, um mercado de apostas online cresceu rapidamente, ocupou o futebol, a publicidade e as redes sociais e passou a disputar exatamente o recurso que sustenta boa parte dessa estrutura: a renda disponível das famílias.

As bets não fecharam Casas Bahia, Haribo, Kohler ou as fábricas de calçados de Pentecoste. Também não explicam, sozinhas, as recuperações de Oi, Ambipar, Raízen ou outros grupos.

Cada caso tem sua própria anatomia: endividamento, crédito restrito, concorrência, gestão, mudança tecnológica, perda de competitividade ou redução do consumo.

Mas todos se encontram em algum ponto da mesma estrutura.

A fábrica depende de vendas. O comércio depende do consumidor. Os serviços dependem da circulação de renda. E uma família endividada precisa decidir para onde vai cada real.

Quando parte desse dinheiro migra para apostas, ele deixa de estar disponível para consumo, pagamento de dívidas, poupança ou investimento. É nesse ponto que o cassino digital encontra a loja, o restaurante e a indústria.

O episódio se torna ainda mais curioso porque o próprio Estado regulamentou o mercado, criou regras, autorizou empresas, cobrou outorgas e arrecadou impostos. Depois passou a tratar as apostas como problema social e econômico.

Isso não prova corrupção, extorsão política ou qualquer esquema clandestino. Mas produz perguntas legítimas.

Por que um mercado recebeu autorização, integração institucional e espaço econômico para, pouco depois, ser tratado como atividade nociva? Quanto houve de correção regulatória, quanto de cálculo político e quanto de reação tardia aos efeitos do endividamento?

É aí que entra o velho conselho: follow the money.

Mas tenha uma lanterna acessa nessa escuridão.
E, quando acendo a lanterna, consigo enxergar alguns metros adiante.

Desde janeiro de 2025, o setor regulamentado movimentou cifras gigantescas. O GGR — valor das apostas menos os prêmios pagos — foi de aproximadamente R$ 36,9 bilhões em 2025 e R$ 20,1 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026. Mantido o ritmo, o acumulado até agosto se aproxima de R$ 63 bilhões a R$ 64 bilhões.

As empresas também pagaram R$ 30 milhões por autorização. Com 85 companhias habilitadas, as outorgas chegaram à casa dos bilhões. A arrecadação federal ligada ao setor de jogos e apostas acumulou cerca de R$ 18,9 bilhões entre 2025 e agosto de 2026. O lucro líquido conjunto não é divulgado oficialmente, mas estimativas econômicas colocam o resultado acumulado do setor regulamentado entre R$ 7 bilhões e R$ 11 bilhões.

Enquanto isso, do outro lado da rua, o ambiente empresarial mostra sinais claros de pressão.

Entre janeiro e agosto de 2026, aproximadamente 2,18 milhões de CNPJs foram baixados. Isso não significa 2,18 milhões de falências: entram nessa conta MEIs, encerramentos voluntários e reorganizações. Mais de 4 milhões de empresas também foram abertas no período.

Mesmo assim, o quadro financeiro preocupa. Em julho de 2026, cerca de 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes, acumulando aproximadamente R$ 238,6 bilhões em dívidas. Só entre janeiro e abril, 602 CNPJs apareceram em pedidos de recuperação judicial e outros 234 em pedidos de falência.

A situação das famílias ajuda a completar o desenho.

Cerca de 82% dos lares brasileiros possuíam algum tipo de dívida em julho e agosto de 2026. Isso não significa que 82% estivessem inadimplentes: aproximadamente 29,8% tinham contas em atraso. Entre famílias de menor renda, porém, a pressão era maior.

E o dado da Serasa torna a fotografia ainda mais pesada. Os 78,2 milhões de inadimplentes de julho de 2025 já ficaram para trás. Em agosto de 2026, eram aproximadamente 84 milhões de consumidores negativados — mais da metade da população adulta —, depois de julho registrar 83,9 milhões de pessoas e cerca de R$ 586,5 bilhões em dívidas.

Agora coloque todas as peças na mesma mesa.

Empresas endividadas.
Famílias endividadas.
Crédito caro.
Recuperações judiciais.
Consumo pressionado.
E um setor digital capaz de movimentar dezenas de bilhões justamente a partir da renda dessas mesmas famílias.
Isso não constrói automaticamente uma teoria da conspiração.
Constrói uma pergunta econômica.

Seguir o dinheiro não significa inventar uma mala. Significa acompanhar quem recebe, quem paga, quem arrecada, quem perde consumo e quem ganha poder quando o fluxo muda de direção.

Teoria preenche lacunas com imaginação.

Investigação preenche com números.

Follow the money. Mas mantenha a lanterna acesa.

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