
O que mascar um chiclete ou passar perfume têm a ver com a escolha de uma cachaça de qualidade? Para os jurados do III Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista, evitar esses itens é um dos cuidados para não interferir na percepção de aromas e sabores. Nos dias 22 e 23 de outubro, 20 especialistas e apreciadores da bebida avaliaram mais de 140 rótulos na Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA) , em uma análise que levou em conta desde a aparência até o equilíbrio da bebida.
Composto por especialistas e apreciadores da bebida, o corpo de jurados avaliou as amostras às cegas, identificadas apenas por códigos, sem conhecer as marcas. Todas as cachaças participantes possuem registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o que comprova sua regularidade junto ao órgão federal. A análise sensorial é realizada em quatro etapas: visual, olfativa, gustativa e impressão final.
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Referência em análise sensorial de cachaça, Jairo Martins participa do concurso desde a primeira edição.
Sua trajetória com o destilado começou em 1987 e, desde então, ele aprofundou os estudos sobre a bebida, tornou-se autor de livros e passou a ministrar palestras internacionais sobre o tema. Durante a avaliação, explicou os principais critérios que ajudam a determinar a qualidade de uma cachaça.
“Ao longo desse processo, são avaliadas características como limpidez, brilho, cor, intensidade, natureza, acidez, qualidade e harmonia da bebida. Além disso, o processo de produção, especialmente os cuidados com a higiene, é um fator decisivo para a qualidade da cachaça”, explicou.
A jornalista Amarillis D’Angelo, sommelier de cachaça e fundadora do perfil Drink Comigo no Instagram, onde ensina a preparar drinks em casa, participou pela segunda vez como jurada do concurso. Com formação especializada na bebida, ela destacou que reconhecer uma cachaça de excelência exige olhar para toda a cadeia produtiva, da origem da matéria-prima ao produto servido na taça.“Todo o processo produtivo importa para chegar a uma cachaça de qualidade, desde o plantio da cana até o cuidado no envase do líquido”, destacou.
Já a influenciadora digital Cinthia Miotto, responsável pelo canal “Garota do Drink”, dedicado ao universo dos coquetéis, estreou como jurada nesta edição. Ela compartilhou sua experiência na avaliação das amostras e celebrou o crescimento da força da cachaça no estado.
“É uma honra participar desta análise, principalmente por acreditar no potencial da cachaça e ter a oportunidade de mostrar a mais pessoas o profissionalismo com que a bebida é produzida. Ver tantos rótulos sendo avaliados demonstra o quanto o setor está evoluindo e investindo em qualidade. Quanto mais conhecemos a cachaça, mais motivos temos para nos orgulhar de produzir algo tão nosso”, celebrou.
A coordenadora do Grupo de Estudos da Cadeia da Cachaça de Alambique (GECCA) e pesquisadora da APTA Regional de Bauru, Elisângela Jerônimo, destacou a importância da avaliação sensorial e o rigor das etapas anteriores à degustação, que verificam o cumprimento dos padrões legais de qualidade.
“O julgamento sensorial é uma das etapas mais importantes de todo o processo do concurso, porque é nesse momento que a qualidade da bebida é avaliada por meio dos nossos sentidos. É importante destacar que, antes de chegar a essa etapa, as cachaças passam por uma conferência da documentação e dos laudos de análise química, que verificam se atendem aos padrões legais de qualidade”, explicou.
A edição do concurso contempla sete categorias: branca, armazenada, envelhecida em carvalho, premium, extra premium, madeiras brasileiras e blend. Segundo Elisângela, as classificações consideram fatores como tempo de envelhecimento, contato com diferentes tipos de madeira e combinação de cachaças, valorizando a diversidade de aromas e sabores do destilado.
O III Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista busca ampliar as oportunidades de mercado para os produtores e valorizar a história e a tradição da bebida no estado. A cerimônia de premiação está prevista para dezembro deste ano. Em suas duas primeiras edições, realizadas em 2024 e 2025, mais de 200 rótulos foram avaliados, contribuindo para o reconhecimento da qualidade da produção paulista e o fortalecimento da cadeia produtiva.

São Paulo é o segundo estado brasileiro com maior número de produtores de cachaça. Segundo o Anuário da Cachaça 2026, são 230 estabelecimentos produtores e 1.185 cachaças registradas no estado. Para valorizar essa produção e aproximar o público da tradição da bebida, as Rotas da Cachaça de São Paulo abrangem 65 municípios e reúnem mais de 80 produtores, conectando diferentes regiões e experiências ligadas ao destilado.
Outro marco é a primeira Indicação Geográfica (IG) da cachaça paulista, concedida à região do Circuito das Águas. O reconhecimento valoriza a origem territorial da bebida e os saberes ligados à produção local, reforçando a identidade da cachaça paulista e sua diversidade de aromas, sabores e métodos de fabricação.
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